Entrevista do PCA da HCB no MOZEFO
"Todos nós sabemos que há um grande défice de electricidade em Moçambique"
Fonte: jornal "O País"
A Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB) é responsável por mais de 80% da produção de energia do nosso país. Em entrevista ao programa MOZEFO, o Presidente do Conselho de Administração da HCB, Paulo Muxanga, aborda temas como estratégia de formação de quadros, renegociação do contrato de abastecimento com a África do Sul, projecto de construção da Central Norte, entre outros. Não perca esta grande entrevista na íntegra, hoje, às 22h00, na STV
- A HCB é mais do que uma central hidroeléctrica, é um símbolo nacional. Como tem sido a experiência de gerir este símbolo desde a sua reversão (para controlo moçambicano) em 2007?
O sucesso que até agora tivemos deve-se, em grande parte, ao apoio que tivemos dos trabalhadores. São trabalhadores muito engajados nas suas tarefas, muito conscientes do papel que a empresa representa. Mas também tivemos a rara oportunidade de encontrar uma empresa quê estava bem estabelecida, o que facilitou imenso, e tudo o que fizemos foi continuar e, sobretudo, melhorar aquilo que de bom havia. O principal desafio foi a moçambicanização dos quadros, uma vez que a HCB ainda representava um resíduo do bastião colonial em Moçambique. Portanto, a nossa tarefa foi moçambicanizar a HCB. Isso foi conseguido através de muito esforço, de tal maneira que, neste momento, temos urna massa laboral de 760 trabalhadores e menos de 1% são estrangeiros. Todos os postos de chefia são ocupados por moçambicanos.
- Qual foi a estratégia da HCB a esse nível e que lições é que os outros operadores poderão retirar dessa experiência?
Foi uma opção tomada desde o início. A reversão foi em 2007 e lima das prioridades que o Governo nos deu foi de tornar a HCB moçambicana. Portanto, mudámos de política radicalmente. Foi preciso fazer acções de formação massivas. Em 2006, que foi o período de transição, havia cerca de 40 estrangeiros em lugares cimeiros, técnicos e de direcção, para além do conselho de administração. Foi preciso fazer um grande esforço, no decurso de um ano. Em conjunto com a administração portuguesa, tentámos implementar um programa acelerado de formação. Só no primeiro ano, gastámos cerca de 1 milhão e meio de dólares para que, quando houvesse a reversão, tivéssemos gente capacitada. Mas é evidente que esse esforço continuou para além de 2007, com acções de formação dentro do país, no Songo, mas também fora do país. Muitos dos nossos quadros foram enviados para o Canadá, mas também para a Africa do Sul e China. Com todas essas acções, foi possível revertermos a situação. (...) O nosso sector de actividade é muito tecnológico e estávamos conscientes de que tínhamos de nos relacionar com aquilo que há de melhor no mundo.
- Essa experiência poderá inspirar não só outros operadores, mas também o Governo, no sentido de desenvolver um plano de formação que responsa às necessidades da indústria?
Penso que é essencial. E um sector que requer muita tecnologia de ponta, portanto é necessário que os quadros que trabalham nesse sector tenham a melhor formação possível. Essa formação não se adquire apenas nos livros. Com o Instituto Politécnico do Songo, garantimos que os alunos beneficiem das nossas oficinas, dos nossos equipamentos, etc.
- Tem a noção de que a HCB está a investir na formação de quadros para, um dia mais tarde, servirem a concorrência?
Nós somos uma empresa moçambicana e estamos perfeitamente claros de que devemos contribuir para a capacitação de mão-de-obra para o país. Temos acordos com a Universidade Eduardo Mondlane, temos um financiamento que serve para bolsas de estudo, e o mesmo para o JSU-TC. Certamente não esperamos que todos aqueles que beneficiam das nossas bolsas sejam integrados na HCB. São quadros que devem servir para as necessidades do país não só no Estado, mas também no sector privado. Essa concorrência é muito salutar e necessária. Todos sabemos que há um grande défice de electricidade em Moçambique. Produzimos 2075mw, saturámos a nossa capacidade de produção, temos só cinco geradores, portanto não há mais nada a fazer. Atingimos o limite da nossa produção. Servimos os países vizinhos, servimos o país, mas não há dúvida nenhuma de que Moçambique de agora não é o mesmo de 1975, quando o acordo com a África do Sul foi firmado. As coisas evoluíram, o que quer dizer que há muito mais consumo de energia. Estima-se que até ao ano de 2020 haja a necessidade de incremento de mais 600mw.
- De onde virão esses megawatts?
É necessário que se invista em mais produtores de energia.
- A pressão que existe neste momento sobre a HCB é enorme?
Efectivamente, porque nós fornecemos 80% das necessidades. Os colegas da EDM têm duas ou três centrais e estão a trabalhar noutras centrais, mas não chega. E necessário que venham outros produtores de energia. A nível nacional, o mapeamento mostra que há lugares propícios para construção de hidroeléctricas na ordem de dezenas. Nós deveríamos explorar esses lugares, porque estamos a chegar a uma altura em que o défice está a mostrai-se bastante grande. Mas não nos esqueçamos de que Moçambique não é uma ilha e essa pressão não é só nacional, mas regional. Cerca de 65% da nossa produção é para a África do Sul, constantemente vemos as suas dificuldades e posso garantir-lhe que está com os olhos postos em Moçambique. As necessidades de electricidade na Africa do Sul São tremendas. Praticamente todos os países da região estão a olhar para a HCB e é com muita pena que lhes dizemos que, pôr enquanto, não podemos fornecer energia. Estamos com projectos em pipeline que pensamos que vão frutificar daqui a algum tempo.
- Como se gere essa dualidade entre a necessidade de energia que é um imperativo social com a pressão de viabilização económica da empresa?
Esta questão põe-se e com muito cuidado, não tanto com a HCB. A HCB é uma empresa extremamente sólida. (...) Temos clientes bons que nos pagam a tempo e horas, mas também temos clientes que têm dificuldades. Essas dificuldades repercutem-se na nossa tesouraria de forma muito acentuada. Como temos esse arcaboiço, é possível continuarmos a operar normalmente, mas ressentimo-nos. Agora, imagine uma empresa que não tem o arcaboiço da HCB, que trabalha numa área iminentemente social de electrificação rural, em que há um boom de demanda de energia, e que os seus serviços não são pagos adequadamente nem atempadamente, o que poderá ser? É evidente que essa entidade vai ressentir-se da falta de sustentabilidade. É preciso que cheguemos a uma fórmula em que sirvamos essas necessidades, porque electricidade é qualquer coisa que todo o ser humano deve ter, mas também devemos dar condições para que o fornecedor dessa electricidade possa sobreviver. Temos que arranjar um sistema que garanta isso. (...) Nem todos os consumidores são uniformes. Entre grandes empresas e projectos, comparado com um cidadão anónimo, há uma grande diferença. Parece-me justo que aqueles que têm capacidade paguem uma tarifa diferenciada que subsidie o cidadão.
- Há um cliente que é bom pagador e há outros que nem sempre cumprem os seus compromissos. Isso não indicia uma certa dependência, nomeadamente em relação à África do Sul?
Tem uma posição negocial muito forte, mas também precisa desesperadamente de nós. Mas estamos satisfeitos com a tarifa que pagam. Nós não nos queixamos da tarifa que aplicamos à África do Sul. Atingido o limite do acordo comercial com a África do Sul em 2020, vai ser possível equacionarmos o destino da energia. Já conseguimos algumas vitórias em resgatar alguma energia para Moçambique, mas o momento ímpar vai ser quando expirar o acordo comercial com a África do Sul. Aí poderemos ver que porção de energia deverá Ser dedicada a Moçambique.
- Deverá haver uma variação nessa proporção de 65% que é canalizada para a África do Sul?
Deve haver, mas não na totalidade. Temos algumas responsabilidades internacionais, portanto é preciso uma certa solidariedade regional. Mas creio que chegaremos a uma posição de equilíbrio entre aquilo que são os interesses nacionais e aquilo que devem ser as nossas responsabilidades regionais.
- Tem havido algum atraso na execução das novas infra-estruturas de geração de energia que estão previstas. A que se deve esse atraso?
A nossa acção tem sido a de incrementar a produção de duas maneiras: primeiro, proceder a uma modernização do equipamento instalado. (...) Desenhámos um programa de reabilitação da subestação, que se tem revelado muito difícil de cumprir porque a maior parte do equipamento é dos anos 60. (...) A solução é fazer com que a subestação seja praticamente nova. (...) Portanto, são duas vertentes: a modernização do equipamento e a Central Norte. Efectivamente, a Central Norte é um projecto extremamente importante para o país e para a região. (...) Neste momento, existe uma proposta feita pela HCB e por parceiros, que está a ser estudada pelo Governo e que eu espero que vá servir para que o projecto finalmente arranque. (...) E um projecto do país, portanto tem que ir ao Conselho de Ministros. Pela magnitude e pela importância, tem que ir ao Governo.
- Contando com a aprovação, qual será o tempo de execução?
De acordo com o estudo preliminar, seria entre cinco a seis anos. Mas uma indicação de que há uma grande sensibilidade por parte do Governo, foí-nos perguntado a possibilidade de apressar um bocadinho. O que significa que, aparentemente, está tudo a postos para o arranque.
- Numa perspectiva nacional, olhando para a diversidade de fontes que Moçambique possui, quais é que devem ser priorizadas?
Pondo-me no papel de consumidor, é evidente que gostaria de ter uma electricidade mais barata. Portanto, entre uma fonte que produz energia mais cara e uma que produz mais barata, certamente que iria privilegiar a mais barata. Não há dúvida de que a hídrica é extremamente barata.