O presidente do Conselho de Administração da Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB), Paulo Muxanga, diz que o projecto da Central Norte há muito propalada, vai ser um dos objectos de possíveis parcerias na “terra de Camões”. São necessários perto de 800 milhões de dólares para a HCB aumentar a sua capacidade actual de produção de energia e cimentar a posição de uma das maiores centrais hídricas do mundo.
O Relatório e Contas 2009 da HCB mostra que a produção hidroeléctrica atingiu a marca de 16 574 GWH (Giga watts por hora), o que representa um aumento na ordem de 12,3%, em relação à registada em 2008, e 4,6% acima da produção do ano 2007, que era, até então, o maior volume de produção registado desde o inicio da operação do empreendimento. Isto permitiu que a facturação ascendesse a 8 380 milhões de meticais, o que representa um crescimento de 38,3% em relação a 2008. O que precipitou este aumento na produção da HCB?
No ano de 2009, a HCB registou o maior desempenho, desde a sua criação. Foi o ano em que produzimos com mais intensidade energia eléctrica, que é o objectivo principal da empresa. Conseguimos isto por que efectivamente houve uma alta disponibilidade de grupos geradores e dos sistemas de transmissão e conversão de energia. Esta disponibilidade, por sua vez, deriva da reabilitação da central de produção de energia – um processo que durou três anos, até 2008 -, mas também se deve às melhorias introduzidas na estação de Apollo na África de Sul, para onde escoamos cerca de 80% da produção. Recordar que, em 2008, a África de Sul embarcou num processo de reabilitação da sua subestação, e isto permitiu mais ganhos e menores perdas de energia.
Que oportunidades de negócios a HCB procura nesta missão a Portugal?
Nós constituímos efectivamente uma possibilidade de parceria com empresas portuguesas, por que estamos a explorar um ramo de actividade bastante apetecível no mercado. Como se sabe, na África Austral, assiste-se, desde 2007, a uma crise acentuada de energia. Somos o país, que para além da África do Sul, tem maior capacidade de produção de energia limpa. Portando havendo esta crise energética, e Moçambique tendo disponibilidade, a curto e médio prazo, de produzir energia, é compreensível que sejamos potencialmente parceiros ideais de empresas portuguesas. Também nos interessa explorar o mercado português, porque temos em carteira muitos projectos, de aumento de geração de energia. Temos ainda projectos no âmbito do melhoramento dos equipamentos e que envolvem largas somas de dinheiro e, portanto, uma parceria é sempre bem-vinda. Por outro lado, não nos esqueçamos que a HCB tem dois accionistas – Estado Moçambicano com 85% e o Estado Português com 15% -, e é natural que acompanhemos esta viagem com o intuito de obter novos parceiros.
Esta busca de parceiros tem a ver com projectos de construção da Central Norte da HCB?
O projecto da Central Norte constitui, de facto, a única forma de aumentarmos a capacidade de produção de energia na nossa empresa. Os valores indicativos que existem neste momento revelam que são necessários cerca de 800 milhões de dólares para a execução deste projecto, de modo que é natural que falemos do mesmo, em Portugal, a fim de interessar os possíveis parceiros, bancos e outras empresas portuguesas, que trabalham no ramo de energia. Efectivamente, este é um dos nossos objectivos, dar a conhecer o que é a Central Norte, em que estágio estamos, para vermos como desenvolver este projecto.
Quando efectivamente, pensam em arrancar com a construção deste empreendimento?
Na verdade, nós já começamos e não se trata de um projecto para o futuro. Já finalizamos os termos de referência de dois estudos técnicos: os estudos hidrológicos e o geotécnico. Portanto, estes são os estudos que vão ser lançados agora, para que até ao primeiro trimestre do próximo ano, estes estudos estejam prontos. Estes estudos é que vão dizer de que maneira é possível fazer o estudo da engenharia da Central Norte. Vamos saber em que sítio vamos instalar os três ou quatro geradores adicionais e vamos ver o comportamento das águas do rio Zambeze. Portanto, lançados os estudos, estaremos em condições de avançar no projecto.
A Central Norte vai resolver uma parte desta crise energética, tendo em conta que as necessidades energéticas tendem a crescer, não só em Moçambique, mas também na região?
Estamos a falar de uma capacidade adicional de 1200 Mega watts (MW) e, portanto, é natural que esta capacidade possa melhorar um bocadinho aquilo que é a realidade actual. Para além disso, existe o projecto da Espinha Dorsal Tete – Maputo, o que quer dizer que alguma capacidade que vamos produzir será para a região, mas bastante dele será para Moçambique.
Mas já correm informações sobre parceiros interessados em investir na HCB Norte…
Desde o ano passado já recebemos muitos potenciais parceiros, inclusivamente portugueses, com intenção de investir e firmar parcerias connosco. Mas isto não é problema. O problema está em definir o que vamos fazer, quando que vamos fazer e com quem.
Mas daqui a cinco anos este empreendimento estará operacional…
Este é o desejo. Estamos a trabalhar neste sentido, por que não basta dizer que estamos em crise energética na região Austral de África. São necessárias acções concretas e, como disse, havendo muitos parceiros interessados, não há como não avançar com o projecto.
Como interpreta esta visita do Presidente da República, Armando Guebuza, a Portugal, depois do Primeiro-Ministro português ter estado, em Março último, em Moçambique?
O Primeiro-Ministro português, José Sócrates, esteve, também recentemente em Songo (na HCB), que é um aspecto importante a referir, e mostrou-se extremamente satisfeito com aquilo que viu. Nessa visita, foi assinado um memorando entre os dois governos, que define que os 15% detidos actualmente pelo governo português na HCB seriam vendidos 7,5% ao governo moçambicano e 7,5% para uma entidade portuguesa. Tudo isto constitui, de facto, o pano de fundo, em que se enquadra a viagem do Presidente da República a Portugal. É de esperar que todos nós capitalizemos isto tudo, e nós, como HCB, certamente que iremos fazer. Precisamos de nos mostrar ao mundo, mostrar as potencialidade que existem, atrair capitais, e creio que conseguiremos transmitir esta mensagem.
Esta viagem vai encerrar efectivamente a transferência dos 7,5% das participações de Portugal na HCB a Moçambique…
Creio que os dois governos estão a trabalhar nisto. Porque nós estamos a falar de percentagem que são detidas pelos governos e não por nós, como gestores. Pelo que entendo, há contactos entre os dois governos, no sentido de criar instrumentos necessários para que a passagem seja efectivada. Creio que, possivelmente, vamos assistir ao desenvolvimento deste assunto em Portugal.
Na altura da reversão em 2007, houve informações que o Estado Moçambicano venderia parte das suas acções na HCB a alguns pequenos investidores nacionais. Isso irá acontecer?
Houve de facto especulações. Tenho conhecimento de que 15% da participação de Portugal na HCB vão ao Estado moçambicano.
Mas não existe uma hipótese do Estado vender as acções para particulares?
Penso que o accionista é que deverá responder a esta pergunta. Nós apenas estamos a fazer a gestão da empresa. Agora, esta é uma decisão estratégica que só o accionista está em melhor posição de responder.
No relatório e conta 2009 da HCB, revela-se que a produção hidroeléctrica atingiu a marca de 16.750GWh (Giga watts por hora), o que representa um aumento na ordem de 12,3%, em relação a registada em 2008. Qual é a capacidade máxima de produção da HCB?
A nossa capacidade instalada é de cerca de 17 mil GWh. Mais do que isso não podemos produzir. Portanto, na HCB actual, o que se pode fazer é tentar maximizar os lucros, através de menos avarias e menos perdas. Mas, com equipamento actual, não se pode ir para além disso, daí o interesse na Central Norte. Nós vamos acrescentar mais capacidade de produção.
A HCB tem um plano estratégico cuja implementação começa este ano. Quais as principais linhas deste documento?
O plano estratégico visa efectivamente introduzir melhorias no empreendimento e definir quais os projectos que são prioritários. Poderemos daqui a alguns anos, no âmbito do plano estratégico, ver obras já a desenvolver-se na Central Norte. Outro projecto é a reabilitação dos descarregadores que vai iniciar em Junho deste ano, até 2013/14. Temos um projecto de subestação, que é a infra-estrutura que converte a energia e depois a transmite, aqui temos a possibilidade de reabilitar ou construir nova. Há também que averiguar o estado das linhas. Temos cerca de 1400 km de linha - do Songo até África Sul. O estado das linhas não é das melhores, porque foi vandalizada durante a guerra civil no país, onde percorre 900 km. Não sabemos qual é a real capacidade de alguns troços da linha, e é preciso fazer um estudo. Isto faz parte do projecto designado LIGAR, que inicia este ano.
Há fundos para o projecto de descarregadores, que inicia em Junho próximo?
Já há fundos para o projecto dos descarregadores, que inicia em Junho próximo. No que se refere à subestação, ainda não temos porque se trata de um projecto cujo montante está acima de uma centena de milhões de euros. Portanto, vamos contribuir com fundos próprios e buscar no mercado mais fundos. Neste momento, devo tranquilizá-lo que não haverá nenhum problema de falta de fundos em qualquer destes projectos.
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Fonte: “O País Económico"